Terrorismo: 13 questões sobre o Estado Islâmico

Por Ana Paula S. Lima, editora-chefe da Revista Sapientia

O tema do terrorismo é um dos itens cobrados na prova de Política Internacional do CACD. Nos últimos anos, o assunto caiu na primeira fase do concurso em 2013 e 2011.

Os atentados de 13 de novembro de 2015, em Paris, organizados pelo grupo extremista Estado Islâmico (EI), voltam a evidenciar o risco do terrorismo à paz e à segurança internacional. Os ataques em Paris, assim como o recente atentado no Líbano e a queda de um avião russo no Egito, mostram intensificação das ações do EI no mundo.

Ao Blog Sapi interessa particularmente acompanhar os impactos desses atentados na política internacional, assim como o desdobramento dessa questão em temas pertinentes ao CACD.

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Vamos a algumas perguntas:

1. Por que a França foi atacada?

A França faz parte de uma coalizão liderada pelos Estados Unidos que vem bombardeando posições do Estado Islâmico na Síria e no Iraque. Essa coalização é apoiada também por Reino Unido, Austrália, Turquia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait e Jordânia, além de rebeldes supostamente moderados na Síria.

O envolvimento da França na região, no entanto, não é inédito. É preciso lembrar que durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o acordo Sykes-Picot (1916) desmantelava o Império Otomano, dividindo territórios entre França e Inglaterra. A França estabeleceu um mandato da Liga das Nações sobre a região do Levante, que hoje corresponde à Síria e ao Líbano, entre 1920 até o fim da Segunda Guerra Mundial.

Além disso, a França colonizou regiões do Norte da África como a Argélia. É deste país, aliás, que vem a maioria dos muçulmanos que vivem hoje na França, muitos dos quais não têm sido integrados à sociedade francesa em função da religião.

 

2. Como a ONU vem lidando com o EI?

Há resoluções do CSNU que condenam o financiamento ilícito do Estado Islâmico, tratando de indivíduos filiados ao grupo no Comitê de Sanções do Conselho. Uma das ações práticas é o bloqueio de ativos financeiros de integrantes do EI.

A Comissão de Inquérito, chefiada pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, menciona o EI quando analisa a situação dos direitos humanos na região.

Já o Conselho de Direitos Humanos tem feito resoluções sobre a situação dos direitos humanos na Síria, com menção ao grupo.

> Veja resoluções do CSNU em relação ao Iraque e à Síria.

 

3. Como o EI obtém financiamento para suas ações?

Atualmente, o financiamento vem da cobrança de impostos nas áreas dominadas pelo grupo e do comércio de energia elétrica e petróleo. Recursos também são obtidos do resgate de sequestros a estrangeiros.

 

4. Os cinco membro permanentes do CSNU estão unidos nas ações contra o EI?

Em tese, sim, como indicam as declarações do G20 financeiro, pouco depois dos atentados em Paris. Em Antalya, onde os líderes das 20 maiores economias do mundo se reuniram, Obama e Putin concordaram com um cessar-fogo e com a transição política na Síria.

Na prática, não ocorre dessa forma, pois há duas coalizões lutando contra o EI, uma liderada pelos EUA e outra pelo regime de Bashar al-Assad (apoiada pelo Irã e pela Rússia). Os russos atacam o EI, mas atacam também a oposição síria, apoiada pelos ocidentais.

 

5. Há alguma relação com a crise de refugiados na Europa?

Sim. O maior grupo de imigrantes que chega à Europa vem da Síria. Com o país dividido, eles fogem da violência praticada pelo EI, pelos grupos opositores ao regime e pelo governo de Bashar al-Assad.

Um dos principais temores dos europeus, sobretudo os de extrema direita, é que o fluxo de refugiados traga infiltrados consigo elementos do EI. Até agora não se pode comprovar uma relação direta entre os refugiados e os atentados.

Ataques em Paris: Ouça a entrevista do professor de Política Internacional do Curso Sapientia Guilherme Casarões à Rádio CBN.

 

6. Qual a posição do governo brasileiro?

Em Antalya, a Presidenta Dilma Rousseff expressou repúdio aos “atos de barbárie praticados pela organização terrorista Estado Islâmico”. Ela foi a única líder do BRICS a citar o nome da organização que assumiu a autoria dos ataques. Antes, em discurso na 70a Assembleia Geral das Nações Unidas, Dilma já havia responsabilizado o EI como a principal causa da crise dos refugiados.

O Brasil veem condenando as ações do EI, tendo votado a favor da resolução sobre a situação dos direitos humanos na Síria no Conselho de Direitos Humanos da ONU em 2 de julho de 2015.

 

7. Mas, afinal, o que o Estado Islâmico quer? 

O EI tem como objetivo criar um Estado a partir de territórios do Iraque e da Síria. Esse Estado adotaria como forma de governo o califado, no qual o califa (considerado sucessor do profeta Maomé) seria a autoridade de todos os muçulmanos do mundo, independente do ramo religioso (como xiitas e sunitas, por exemplo) ou nacionalidade. Em junho de 2014, o líder do Estado Islâmico, o sunita Abu Bakr al-Baghdadi, autodeclarou-se o sucessor do profeta Maomé.

 

8. O EI já tem uma base territorial?

Sim. O Estado Islâmico exerce poder sobre regiões do Iraque e da Síria que, juntas, constituem uma área maior do que o território do Reino Unido.  Essas regiões, no entanto, nem sempre são contíguas e lineares. O EI também tem controle de algumas regiões da Líbia, inclusive a cidade de Sirpe.

 

9. Como o EI vem se fortalecendo?

A precária situação no Iraque após o fim da guerra (2003 – 2011) e a guerra na Síria são dois ambientes propícios de aliciamento de combatentes para o EI. Há populações sunitas nos dois países que se colocam contra o governo de Bashar al-Assad na Síria e contra o governo xiita do Iraque.

 

10. Qual é a tática de recrutamento utilizada pelo EI no Iraque?

O EI explora as tensões entre xiitas e sunitas no Iraque para se fortalecer. Após a Guerra do Iraque e a queda do sunita Saddam Hussein, os Estados Unidos colocaram um governo xiita no poder. Durante o governo do primeiro ministro Nouri al-Maliki (2006-2014) foi negado espaço no governo aos sunitas. Além disso, houve grande perseguição aos sunitas, resultando na prisão e na morte de civis.

 

11. E na Síria?

Na Síria, a participação do Estado Islâmico contra o governo de Bashar al-Assad não tem como objetivo simplesmente derrubar o governo do país, mas se aproveitar da situação para estruturar o califado. O EI atua de forma independente na guerra, sem alinhamento aos grupos de oposição.

Os curdos no Iraque e na Síria são os principais combatentes contra o EI em solo, tornando-se importantes para a estratégia da coalizão americana, mas criando, por outro lado, atritos com o governo turco.

 

12. Só sunitas iraquianos e sírios fazem parte do EI?

Não. Estrangeiros constituem parte considerável da organização militar do grupo. De acordo com o serviço de inteligência norte-americano, quase metade dos 31,5 mil integrantes do Estado Islâmico é formado por estrangeiros (2 mil deles são ocidentais). Especialistas afirmam que as redes sociais têm sido fundamentais para espalhar a propaganda do EI e recrutar combatentes mesmo em países ocidentais como França, Reino Unido e Austrália. Como se viu agora, nos atentados em Paris, um dos maiores temores dos governos ocidentais é que esses insurgentes voltem aos seus países, desestabilizando a segurança local.

 

13. O EI tem alguma relação com a Al-Qaeda?

O Estado Islâmico foi fundado em 2004, no Iraque, como um braço da Al-Qaeda. No início de 2014, os dois grupos se desentenderam e o EI começou a agir sozinho. Em 10 de setembro de 2015, a Al-Qaeda oficialmente declarou guerra ao Estado Islâmico. Hoje EI e Al-Qaeda competem por influência nos grupos extremistas islâmicos no mundo todo.

O Blog Sapi agradece às dicas dos professores de Política Internacional do Curso Sapientia Leonardo Rocha Bento e Guilherme Casarões.
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5 comentários sobre “Terrorismo: 13 questões sobre o Estado Islâmico

  1. Pingback: Atentados de Paris e seus efeitos na Política Internacional | Sapi

  2. Olá, muito obrigado pelo conteúdo, foi muito útil. Só essas questões pra quem não entende nada sobre o EI já é suficiente, e principalmente pra quem já sabe alguns pontos. É importante já saber como o Islã foi formado, a origem; qual o motivo do conflito entre sunitas x xiitas; guerra na síria e primavera árabe.

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