O que significa a viagem de Obama a Cuba?

O presidente norte-americano Barack Obama encerrou ontem uma visita oficial de três dias à Cuba. A viagem, a primeira de um presidente dos Estados Unidos em quase 90 anos, foi idealizada para aprofundar as relações entre os dois países após o anúncio de normalização do relacionamento bilateral em dezembro de 2014.

Apesar da simbologia da visita a Havana, a aproximação entre EUA e Cuba esbarra em algumas questões polêmicas, como Guantánamo e o fim do embargo comercial imposto há mais de cinco décadas sobre a ilha caribenha. Ainda assim, a retomada de relações e a busca pela superação desses conflitos têm a possibilidade de repercutir tanto no sistema internacional, quanto no sistema interamericano.

 

obama cuba

Obama nas ruas de Havana. Foto: Pete Souza/ The White House

PRINCIPAIS QUESTÕES EM ABERTO

O embargo econômico ainda vigente em Cuba representa um desafio nas relações bilaterais. O presidente cubano chegou a declarar, durante a coletiva de imprensa com Obama, que o embargo é o maior obstáculo para o aprofundamento das relações com os EUA.

Outro entrave para os cubanos é a base militar americana em Guantánamo. Remanescente da relação entre os países no início do século XX, a presença americana na região tem sido criticada pelo governo cubano desde o movimento revolucionário que levou os Castro ao poder. Porém, apesar de Obama defender o fechamento da controversa prisão na base militar, o governo dos Estados Unidos já se posicionou contra a devolução da base militar para Cuba, alegando interesse estratégico.

A temática dos direitos humanos – em particular, as acusações de violações pelo governo dos irmãos Castro – também apresenta dificuldades para o relacionamento bilateral. Um exemplo do tipo de alegação feita por dissidentes cubanos ocorreu logo antes da chegada de Obama à capital, quando integrantes do grupo opositor Damas de Branco foram detidas temporariamente por pedirem pela libertação de presos políticos. Durante a estadia em Havana, Obama afirmou diversas vezes que divergências relacionadas à democracia e aos direitos humanos são fatores impeditivos à aproximação entre os países.

Há, ainda, a incógnita sobre o próximo presidente norte-americano, visto que as eleições primárias ainda estão indefinidas. Dessa forma, fica em aberto como e se essa reaproximação será conduzida pelo próximo mandatário. Obama garante que a aproximação é “um caminho sem volta” e, apesar de a maioria dos americanos apoiar o presidente em relação à normalização de relações com Cuba e ao fim do embargo, grande parte (40%) não acredita que isso será suficiente para garantir a democracia no país, um dos grandes argumentos do governo atual.

Camp_Delta,_Guantanamo_Bay,_Cuba

Foto: Domínio Público

IMPACTO DAS RELAÇÕES CUBA-EUA NO MUNDO

A reaproximação entre EUA e Cuba pode ser entendida no contexto de inserção internacional promovida pelo presidente norte-americano dentro da chamada Doutrina Obama. De caráter progressista, a posição do governo norte-americano volta-se para o engajamento, ao invés de confronto, dos diferentes atores internacionais. A atuação dos EUA passa a ser guiada por uma combinação entre hard power e soft power (alcunhada como smart power), promovendo o diálogo entre agentes internacionais para solucionar os problemas do século XXI.

Ao buscar a superação do imbróglio com o governo cubano, Obama não só fortalece o próprio discurso de política externa, como a posição dos EUA no sistema internacional. O isolamento econômico e político de Cuba já não era mais bem visto por diversos atores internacionais, inclusive aliados dos EUA. Ao defender a aproximação, os governo norte-americano busca reafirmar sua posição de liderança na política internacional.

Outro resultado da aproximação Estados Unidos-Cuba é a problematização da questão dos direitos humanos. Por ser um dos temas mais controversos para a normalização da relação bilateral, as violações nesse campo passam a ocupar os debates internacionais e levantam controvérsias para além do Caribe. Observa-se a duplicidade de como o tema é tratado por diversos Estados no mundo, incluindo os EUA. São países que defendem o regime internacional de direitos humanos ao mesmo tempo em que não impõem medidas efetivas para eles próprios ou para seus aliados e parceiros.

twitter obama

Imagem: Reprodução/Twitter

AMÉRICA LATINA E BRASIL

O maior impacto da aproximação EUA-Cuba no sistema internacional deve se dar em relação ao continente americano. Muito antes do anúncio da normalização da relação bilateral, os países da América Latina já defendiam posições amplamente contrárias ao isolamento imposto a Havana. O apoio da região à Cuba foi reiterado na última Cúpula da CELAC, em janeiro de 2016, com duas declarações aprovadas pelos países membros – uma sobre o embargo e outra sobre a base em Guantánamo.

A relação de Cuba com os países latino-americanos não é uniforme, havendo países mais engajados com o governo cubano, como é o caso de Venezuela e Nicarágua, e outros menos. Ainda assim, o anúncio da normalização de relações foi celebrado pelos governos do continente devido à indicação de superação de paradigmas ultrapassados nas relações internacionais. Uma aproximação entre os Estados Unidos e Cuba pode promover maior sinergia na relação do governo norte-americano com os países ao sul, de forma geral.

No caso brasileiro, há possibilidade de intensificação de relações com ambos os países. O histórico de relações positivas do Brasil com o governo cubano vem-se intensificando no século XXI, por meio de investimentos e parcerias políticas, como o programa Mais Médicos e o investimento do BNDES no Porto de Mariel. Dessa forma, o país poderia se beneficiar com o fim do embargo de forma específica. Já em relação aos Estados Unidos, a aproximação agrada tanto ao governo quanto à sociedade brasileira e pode impulsionar uma melhoria na relação política entre os países, em particular em relação a questões continentais. Apesar disso, é importante frisar que o isolamento cubano não é e nem foi o grande problema da relação bilateral Brasil-EUA. Ou seja, mesmo com a normalização das relações EUA-Cuba, outras questões entre Brasília e Washington, como celeumas relativos ao comércio internacional e à governança global, mantêm-se nas discussões entre os governos.

celac

A IV Cúpula da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos, em janeiro de 2016. Foto: Roberto Stuckert/PR

 

Referências:

http://www.nytimes.com/interactive/projects/cp/international/obama-in-cuba/most-americans-support-ending-cuba-embargo-nyt-poll-finds

http://en.mercopress.com/2016/03/22/obama-and-castro-agree-to-disagree-but-determined-to-advance-in-a-new-day

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/03/como-e-quanto-os-eua-pagam-a-cuba-pelo-aluguel-da-baia-de-guantanamo.html

https://www.whitehouse.gov/issues/foreign-policy/cuba

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/03/cuba-tem-presos-politicos-a-pergunta-que-incomodou-raul-castro-durante-visita-de-obama.html

http://oglobo.globo.com/mundo/doutrina-obama-nos-15809179

http://www.otempo.com.br/blogs/carta-e-cronica-19.120/a-doutrina-obama-19.420642

http://www.cfr.org/cuba/us-cuba-relations/p11113

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/12/141218_pontos_vistas_cuba_jf_fd

http://goo.gl/4FK94I

 

 

 

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