Deu Brexit. O que vem agora?

Apesar das últimas pesquisas de intenção de voto terem indicado empate técnico, a confirmação da vontade do Reino Unido de deixar a União Europeia deixou o mundo todo em estado de choque, levando à renúncia do primeiro-ministro britânico, David Cameron, e à grande instabilidade.

As principais motivações dos eleitores britânicos pró-Brexit (Britain’s Exit) pautam-se no desejo por maior independência decisória do Reino Unido em suas relações internacionais e por menor burocracia regulatória de Bruxelas. A questão migratória também pesou na decisão, havendo a percepção pelos britânicos da necessidade de proteção das fronteiras contra imigrantes, principalmente europeus.

Mesmo ainda havendo muitas incertezas sobre o que isso significará de concreto para o Reino Unido, para a União Europeia e para o mundo, há alguns pontos importantes a serem destacados nessa decisão.

Veja também: A reação do mundo ao Brexit em onze charges

Negociações difíceis

Apesar da vitória nas urnas, a saída do Reino Unido do bloco europeu não será imediata. Primeiramente, o Parlamento britânico precisa aprovar a saída, apesar de ser considerado apenas uma formalidade. De acordo com analistas, seria virtualmente impossível reverter o resultado do plebiscito popular no Legislativo: mesmo os representantes sendo mais favoráveis à permanência que a população, ir contra a vontade popular teria consequências políticas muito graves e não há expectativa de que o Parlamento britânico vá fazer isso.

Além do processo doméstico, o artigo 50 do Tratado de Lisboa, que regula a saída de membros do bloco, estabelece um período de negociação de até dois anos para acertar os termos da retirada do bloco, assim como as relações do país com a União Europeia e com os membros remanescentes. As negociações envolverão a rescisão dos tratados de integração existentes, assim como a necessidade de mudança de legislação doméstica do Reino Unido. A complexidade dessas negociações e a incerteza de como serão conduzidas, já que nunca houve processo semelhante antes, podem fazer com que o prazo de dois anos não seja considerado suficiente para a mudança de mais de 40 anos de relações pautadas na integração.

Disparidade regional

A vitória apertada do Brexit (51.9% do total) demonstrou a profunda divisão no país. Entre as macrorregiões que votaram pela permanência no bloco europeu destacam-se a Escócia, a Irlanda do Norte, a cidade de Londres e o estreito de Gibraltar. Escócia e Gibraltar são dois pontos sensíveis nesse resultado.

Na derrota recente pela independência escocesa frente ao Reino Unido, um dos pontos que pesou para a permanência foram as vantagens comerciais e financeiras que a União Europeia apresentava à economia da região. Com a saída, há a possibilidade de fortalecimento do movimento separatista da Escócia. O premiê escocês, Nicola Sturgeon, afirmou que é “muito provável” haver novo referendo sobre a questão, apesar de também ter exigido a presença escocesa nas negociações envolvendo a saída efetiva do bloco.

Gibraltar votou massivamente pela permanência na União Europeia – mais de 96% dos votos no território britânico foram favoráveis ao bloco, a maior porcentagem vista nas regiões. A divergência de posição entre Gibraltar e o Reino Unido revive questões delicadas para as relações europeias, em especial para as relações anglo-espanholas. Apesar do domínio britânico desde 1713, a Espanha continua declarando sua soberania no território. O ministro de relações exteriores da Espanha, Jose Manuel Garcia-Margallo, declarou que o voto contrário ao Brexit abre oportunidades “não vistas em muito tempo” para a uma possível co-soberania no território.

Economia britânica pós-UE

Um dos principais fatores de preocupação diz respeito às relações econômicas e financeiras do Reino Unido e da União Europeia após a saída do bloco. Os mercados reagiram negativamente à decisão dos cidadãos britânicos: bolsas ao redor do mundo despencaram e o valor da libra em relação ao dólar caiu para o menor patamar em 30 anos. O grande problema para os investidores, e que está gerando essa instabilidade financeira, é a incerteza: o que acontecerá com a economia britânica com a saída?

A necessidade de novos acordos comerciais será um dos grandes fatores dos próximos anos para o Reino Unido. Além de renegociar com todos os membros da União Europeia, o país também terá que refazer acordos que mantinha com terceiros países por meio do bloco. O poder de barganha do Reino Unido tende a ser enfraquecido ao não fazer mais parte da economia europeia e do gigante mercado que esta representa.

Uma aposta para a economia britânica é a aproximação ainda maior com os Estados Unidos, parceiro de longa data e aliado em matérias diversas, não só econômicas. O presidente americano Barack Obama disse respeitar a decisão dos britânicos, afirmando que continuarão a ser “parceiros indispensáveis”, apesar de ter sido publicamente contrário ao Brexit. Durante sua visita ao país esse ano, Obama declarou que a prioridade dos Estados Unidos seria um acordo comercial com a União Europeia e não com o Reino Unido, que ficaria “no fim da fila”, apesar de não descartar um eventual acordo bilateral entre eles. As relações entre Estados Unidos e Reino Unido devem ser impactadas pelas eleições norte-americanas, já que tanto Hillary Clinton quanto Donald Trump tiveram posições mais amenas que o presidente durante a campanha do referendo britânico.

A possibilidade de saída de investimentos e negócios do Reino Unido em direção a outros países do continente é outro risco assumido nessa transição. Um dos grandes atrativos de investimentos internacionais para o país era o acesso privilegiado ao enorme mercado europeu, que, aliado à própria estrutura econômica britânica, fazia com que fosse o país concentrasse esses investidores. Com a saída, há a tendência esperada que esses investidores e empresas se realoquem-se para países membros da UE de forma a não perder os benefícios da integração, o que pode agravar ainda mais a balança comercial do Reino Unido, tradicionalmente deficitária. Além da migração de empresas, há também a possibilidade de migração de investimentos das bolsas de valores britânicas, em especial a de Londres, para as bolsas europeias, fragilizando o sistema financeiro no país.

Consequências para a União Europeia

A saída do Reino Unido é um golpe forte para o processo de integração europeu, que já vem lidando com outras questões delicadas, como a crise econômica e a questão dos imigrantes. O maior receio de Bruxelas é que o sucesso do Brexit influencie movimentos semelhantes em outros países da União Europeia, enfraquecendo o bloco. Diversos líderes de movimento nacionalistas e eurocéticos, como Marine Le Pen (França) e Geert Wilders (Holanda), elogiaram a decisão britânica e defenderam referendos similares em seus países. O sentimento eurocético vem ganhando força na política europeia e teme-se que a saída do Reino Unidos fortaleça esse movimento, mesmo que somente de forma momentânea.

Líderes dos principais países da União Europeia estão tentando tranquilizar os mercados e outros países após o voto britânico. Angela Merkel e François Hollande reconheceram a gravidade da decisão, mas prometeram esforços para a superação da questão de forma a manter o processo de integração da Europa. A ideia é que o processo seja conduzido rapidamente de forma a evitar o cenário de incerteza que pode dominar a economia europeia e global. A possibilidade de uma “má vontade” de Bruxelas em relação à negociação com o Reino Unido possivelmente será substituída pela necessidade de estabilização do continente.

Assim como em momentos de incerteza anteriores, a União Europeia deve buscar avançar no processo de integração, de forma a evitar retrocessos maiores. Para tal, será necessário superar algumas diferenças entre os dois maiores países do bloco, França e Alemanha, visando a unidade do bloco e sua inserção internacional coesa.

Consequências para o Brasil

A União Europeia representa o maior parceiro comercial do Brasil (lembrando que a China é o maior parceiro individual) e o Reino Unido atuava como “ponto de entrada” do Brasil no bloco econômico. A saída do país pode levar a uma necessidade de empresas e investimentos brasileiros migrarem para outro país-membro de forma a manter as relações com a União Europeia (cogita-se, inclusive, a migração para a Irlanda de muitos desses investimentos).

Além dos investimentos brasileiros, a saída do Reino Unido representa um problema potencial para as negociações de um acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia. Esse acordo já tinha grandes dificuldades de negociação, tendo sido interrompido em 2004 inclusive, mas o Reino Unido era um dos seus defensores por sua tradicional posição liberal. Apesar das recentes declarações francesas em favor do acordo, há a possibilidade da perda de ímpeto nas negociações com a saída do Reino Unido. O acordo Mercosul-União Europeia é visto pelo presidente interino Michel Temer como pilar fundamental para o fortalecimento econômico brasileiro e aceleração da economia.

 

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Um comentário sobre “Deu Brexit. O que vem agora?

  1. Para além de Escócia e Gibraltar outra nação do Reino Unido votou majoritariamente pela permanência: a Irlanda do Norte (nesse caso um eventual referendo de permanência no Reino é potencialmente muito mais explosivo do que na Escócia, dado os ressentimentos do passado recente e divisões étnico-religiosas). Um adendo geográfico: “estreito de Gibraltar” é apenas a designação do pedaço de mar que separa a Europa da África, o território em si é apenas Gibraltar 🙂

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