As Guerras do Pacífico: Chile, Peru e Bolívia

monumento chile

Monumento a los Héroes de Iquique (Guerra do Pacífico) – Valparaíso, Chile

Apesar da América do Sul não ser caracterizada como uma região de embates ou instabilidade constantes, certas tensões são observadas nas relações entre alguns países vizinhos. Isso pode ser observado nas relações entre Chile, Peru e Bolívia, marcadas por desentendimentos fronteiriços e questões econômicas que remontam ao fim da dominação espanhola no continente. Durante o século XIX, essas desavenças culminaram em dois conflitos armados e resultaram em pendências jurídicas em discussão ainda hoje.

 

I) Guerra da Confederação Peruano-Boliviana (1836-1839)

Considerada como uma “primeira Guerra do Pacífico”, o aumento de tensão entre o Chile e os seus vizinhos na primeira metade do século XIX ocorre a partir da conformação da Confederação Peruano-Boliviana (1836), unindo os dois Estados sul-americanos por meio da articulação do general boliviano Santa Cruz e lideranças peruanas. O Peru vivia grande instabilidade interna desde a sua independência e a ideia de uma confederação entre as duas regiões não era novidade nos debates locais. Apesar disso, houve resistência interna tanto no Peru, por entenderem que a atuação do General Santa Cruz era uma intervenção no país, quanto na Bolívia, pela transferência da capital para território peruano.

Os países vizinhos também entenderam essa união – e o consequente fortalecimento desses países – como uma ameaça potencial. As Províncias Unidas, já sob o comando de Juan Manuel Rosas, criticaram a formação da confederação, porém sem ações efetivas de princípio. Já o Chile entende que a união entre Peru e Bolívia tem caráter ofensivo aos interesses chilenos, em especial, os comerciais e portuários no norte do seu território. Por isso, e utilizando argumentos diversos, o Chile declara guerra à Confederação em 1836. Apesar de ter buscado formar uma aliança com as Províncias Unidas e com o Equador, o esforço só é parcialmente bem sucedido. O Equador não participa do esforço de guerra e as Províncias Unidas declaram guerra à Confederação somente no ano seguinte, mas atuam de maneira majoritariamente destacada do Chile.

A necessidade de divisão do esforço de guerra peruano-boliviano entre Chile e Argentina provou-se ser mais que a Confederação podia suportar. Dessa forma, apesar de infligir derrotas às Províncias Unidas, que recua em 1838, o governo de Santa Cruz é derrotado por tropas chilenas na Batalha de Yungay, em 1839, marcando o fim do conflito e da união entre Peru e Bolívia.

II) Guerra do Pacífico (1879-1883)

O conflito mais famoso envolvendo esses três países foi a Guerra do Pacífico, notória por impor a condição de país mediterrâneo à Bolívia, que até então tinha saída para o Oceano Pacífico por meio da região de Antofagasta, hoje chilena. O conflito entre Chile, Bolívia e Peru pode ser entendido como parte do processo de formação desses Estados, após o fim dos vice-reinos coloniais da Espanha na região, porém conflitos fronteiriços não são a única causa para a eclosão da guerra. Interesses econômicos na região tri-fronteiriça também impactaram as relações bilaterais.

A região de Antofagasta detinha grandes reservas de guano e nitrato, dois importantes insumos de uso agrícola, de alto valor principalmente para países europeus, por seu uso como adubador em solos desgastados. A exploração desses materiais na região havia sido objeto de acordo entre Chile e Bolívia, permitindo a exploração chilena na região, que a fazia por meio de cooperação com capital estrangeiro. Quando a Bolívia decide aumentar a cobrança de tributos para a exploração na região, os interesses chilenos e estrangeiros sentem-se prejudicados e pressionam por uma ação efetiva do governo chileno. Devido ao insucesso das tentativas em remover o aumento do imposto, o governo chileno decide ocupar a região de Antofagasta, de maioria chilena.

Apesar do estopim do conflito se primordialmente entre Chile e Bolívia, Peru participa do conflito por causa de um tratado secreto de aliança defensiva, assinado com o governo de La Paz em 1873. Em razão desse tratado, Peru tenta inclusive mediar a questão entre os países vizinhos, porém não tem sucesso. O governo chileno, receoso da uma eventual participação do Peru ao lado da Bolívia, já que Lima se recusava a declarar neutralidade na questão, antecipa-se e declara guerra tanto contra Bolívia como contra o Peru.

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By United States Federal Government [Public domain], via Wikimedia Commons

A guerra contou com embates terrestres e navais e causou severas crises para as populações locais. Inicialmente visto como em desvantagem militar por analistas do período, o Chile conseguiu se impor contra Bolívia e Peru, chegando a ocupar a capital Lima. Peru aceita negociar o fim do conflito, assinando, em 1883, o Tratado de Antón. Nesse tratado, Peru cede definitivamente o território de Tarapacá para os chilenos, além de autorizar a ocupação chilena das regiões de Arica e Tacna, que teriam sua nacionalidade definida por meio de plebiscito após 10 anos. Bolívia assina uma trégua com o Chile em 1884, cedendo o litoral para o vizinho. O estado de guerra entre os países só cessa, contudo, em 1904, com o Tratado de Paz e Amizade, que consagra a cessão do território litorâneo. As cessões territoriais dessa guerra ainda hoje são objeto de disputas no âmbito da Corte Internacional de Justiça (CIJ).

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