Correntes do Pensamento Geográfico

As perguntas relativas à evolução da Geografia como campo de estudo foram, certamente, uma das surpresas do CACD 2016. Apesar de ser um item recorrente do edital, as correntes do pensamento geográfico não costumavam cair com frequência no concurso, nem de forma aprofundada. Mas isso parece estar mudando. Pensando nisso, o blog Sapi fez um pequeno resumo das 5 principais correntes geográficas para ajudar na sua revisão e fichamento.

I) Geografia Moderna

Considera-se que o nascimento da Geografia como área de estudo específica (embora não isolada) e como uma ciência que tem um objeto delimitado, ocorre entre o fim do século XVIII e o início do século XIX. Dois estudiosos alemães são considerados “pais” da Geografia Moderna: Alexander von Humboldt e Carl Ritter. Apesar de compartilharem o título, as obras de Humbolt e Ritter têm algumas diferenças importantes.

Ambos autores estão preocupados com a capacidade de explicar os fenômenos terrestres e as diferenças existentes nas várias partes do globo, porém a forma como o fazem é distinta. Humbolt argumenta a partir de um ponto de vista descritivo e empírico, usando com mais frequência observações de viagens e descrições de paisagens. Sua obra é fortemente ligada à botânica e à geologia, apesar de não se restringir a isso. Ritter, por outro lado, tem um caráter comparativo mais acentuado, relacionando os elementos descritivos com as diferenças no desenvolvimento humano, aproximando-se mais da história e da sociologia. Na obra do Humboldt a questão natural é mais presente do que a social/humana – a questão humana não é tão presente como é com Ritter.

II) Geografia Tradicional

O processo de institucionalização da Geografia como escola de pensamento ocorre em meados do século XIX, inicialmente na Alemanha, o que pode ser considerado um impacto da unificação tardia do país e dos questionamentos relativos à relação entre identidade e território. Nesse processo, ocorre a superação do caráter fortemente empirista dos estudos geográficos, possibilitando o surgimento de debates teórico-metodológicos. Com a Geografia Tradicional tem-se o primeiro grande debate da geografia, que diz respeito ao embate entre sociedade e natureza (já presente em Ritter) e que é centrado no determinismo de Ratzel e no possibilismo de La Blache

Friedrich Ratzel, um dos grandes teóricos da geografia alemã, argumenta que a natureza é um elemento de causalidade na relação com a sociedade, sendo as condições naturais o elemento explicativo para determinar o desenvolvimento humano. O determinismo imposto pela natureza, aliado à falta de capacidade técnica para sobrepor-se às condições naturais, justifica a necessidade de expansão do território para a sobrevivência. Apesar do próprio Ratzel relativizar o determinismo – quando trata de elementos culturais, por exemplo –, o contexto de unificação e fortalecimento alemão, esse discurso foi visto com receios pelos vizinhos, em especial, pela França, de onde surge o principal argumento contrário às teses de Ratzel.

O Possibilismo francês, cujo principal expoente é Vidal de La Blache, foca nas possibilidades de relação entre o grupo humano e o ambiente em que ocupa, criando assim uma relação própria com aquele meio, o que foi chamado de “gênero de vida”. No pensamento possibilista há uma importante relação com o empirismo – as regiões (recorte individual/particular) são descritas de forma a serem melhor entendidas e terem suas capacidades aproveitadas pela aplicação técnica. A partir da compreensão das possibilidades naturais existentes, a sociedade seria capaz de desenvolver-se dentro dos recursos naturais de seu próprio território.

III) Geografia Quantitativa/Teórica/Nova Geografia

Uma das grandes críticas que acompanha o desenvolvimento da Geografia é a suposta falta de um estatuto científico no estudo geográfico. Dessa crítica surge, em meados do século XX, nos Estados Unidos, a chamada Geografia Quantitativa (ou Teórica). Nessa vertente, a modelagem matemático-estatístico é entendida como método privilegiado do estudo geográfico, focando no conceito de “espaço geográfico” (paisagem e suas funções) e não tanto em território (relações de poder). A ótica racionalista do período influencia essa vertente, que é fundamentada no positivismo lógico e nas relações empíricas, negando o regionalismo anterior ao alegar que descrever não seria fazer ciência. Nesse pensamento, as relações no espaço são limitadas à questões de localização/distância e os indivíduos, a consumidores racionais.

IV) Geografia Crítica/Radical

A Geografia Crítica surge na década de 1960 como contraponto às vertentes anteriores. De acordo com os pensadores críticos, dentre os quais se destaca Milton Santos, tanto a Geografia Quantitativa quanto a Tradicional sofrem de graves defeitos. Para esses pensadores, o excesso de preocupação com a modelagem da Geografia Teórica esconde importantes questões de conteúdo social e da relação entre desenvolvimento social e território. Já a crítica contra a Geografia Tradicional concentra-se no uso político-ideológico dos argumentos geográficos.

Para a Nova Geografia, como também é conhecida, a produção do espaço geográfico é influenciada pela produção econômica e determinada pelos poderes econômicos hegemônicos. Como parte da virada marxista presente em diversas áreas acadêmicas no período, a Geografia Crítica dá ênfase às questões sociais da época, que estavam em grande evidência, para criticar o cientificismo da vertente anterior, que ignora a realidade social.

V) Geografia Humanista

Outra crítica ao objetivismo e economicismo exacerbados da Nova Geografia é a chamada Geografia Humanista, que ganha força na década de 1970. Usando a base crítica, a Geografia Humanista ressalta os valores culturais e a ideia de que a relação do homem com o espaço não é objetiva, mas subjetiva. Compreende-se, então, que a relação do homem com a paisagem não é composta apenas pela realidade, mas também pela projeção de valores, individuais e coletivos, sobre a mesma. Impactada pela fenomenologia, a Geografia Humanista entende que a percepção é importante aspecto da relação entre sociedade e natureza, levando em consideração aspectos como expectativas, qualidade de vida e satisfação do indivíduo em relação ao meio. Dessa forma, paisagem e percepção são processos e relações interdependentes.

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