O legado de Barack Obama

obama pb.jpegHoje foi empossado o 45º presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Os desafios do novo mandatário da maior economia global serão muitos, tanto no âmbito doméstico quanto na esfera internacional. Quando Barack Obama assumiu a presidência, em 2009, ele também se viu diante de uma realidade complexa: grave crise econômica, duas guerras custosas em curso, crescente influência chinesa no mundo e deterioração da imagem internacional dos Estados Unidos. Com o fim do governo Obama, é importante olhar para o que foi conquistado nos últimos anos – e o que ficou faltando também.

Inserção internacional americana

Nos primeiros anos do seu governo, Obama buscou reaproximar-se do sistema internacional e apoiar-se novamente no multilateralismo de forma a tentar reconstruir a imagem internacional do país. A estratégia adotada por seu antecessor no seu primeiro mandato, conhecida como Doutrina Bush, havia dado espaço para impulsos unilaterais que, além de desestabilizar o sistema internacional, prejudicaram as relações dos Estados Unidos com outros países, inclusive com governos aliados. Apesar de uma tentativa de correção de curso no fim do governo Bush, essa nova trajetória foi consolidada apenas com Obama e com a redefinição, em bases multilaterais, da política externa americana. A Doutrina Obama, de 2010, consolidava essa nova visão de inserção internacional, focada na aplicação do “smart power” (combinação de hard power e soft power de forma a melhorar a relação custo-benefício), no multilateralismo (reconhecendo o processo de desconcentração do poder mundial) e no reforço do relacionamento com aliados (tradicionais e novos).

Dificuldades no Oriente Médio

Parte da nova política externa americana, mais cautelosa e, muitas vezes, hesitante, é entendida como uma reação à política empreendida anteriormente, uma forma de evitar os erros do passado. Os altos custos das Guerras do Iraque e do Afeganistão (tanto financeiros quanto pessoais) pesavam sobre o novo governo, que continuava incapaz de solucionar e terminar os conflitos. O Oriente Médio pode ser entendido, inclusive, como o grande fracasso do governo Obama. As promessas eleitorais de acabar com a presença militar no Iraque e no Afeganistão não foram cumpridas e a região passa hoje por instabilidades ainda maiores. O surgimento do Estado Islâmico no vácuo de poder deixado no Iraque e a necessidade de enviar tropas novamente para o país; a incapacidade de inviabilizar as ações do Talibã no Afeganistão e de retirar as tropas definitivamente; a crise humanitária na Síria e a indisposição em agir efetivamente no conflito; a constatação da Líbia como um estado-falido após as intervenções ocidentais; o silêncio sobre o grave conflito civil no Iêmen e sobre a participação saudita; além do fortalecimento da influência russa na região são algumas das grandes críticas feitas à política externa americana na região.

A parceria com Israel também passou por um momento delicado durante o governo Obama. As relações com o tradicional aliado foram abaladas tanto pela difícil relação entre o presidente americano e Benjamin Nethanyahu, primeiro-ministro israelense que assumiu no mesmo ano que Obama, quanto pela insistência americana na negociação de um acordo nuclear com o Irã, visto como ingênuo e perigoso pelo governo de Israel. Apesar da oposição e crítica de Israel, o acordo nuclear foi concluído após intensas negociações entre Irã, União Europeia e o grupo conhecido como P5+1 (os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU junto com a Alemanha). Mesmo com críticas internacionais e domésticas, o acordo foi anunciado como um grande triunfo do governo Obama na região, porém encontra-se ameaçado pela eleição do novo presidente, contrário aos termos do tratado.

Já em relação à situação Israel-Palestina, o desgaste foi nítido e as tentativas de negociar a paz sob o patrocínio norte-americano foram malfadadas. A intensificação das incursões militares israelenses, a expansão das ocupações judaicas em território palestino e o fortalecimento do Hamas na Faixa de Gaza são alguns dos resultados da deterioração ocorrida nos últimos anos. Uma das últimas ações do governo Obama em relação a Israel demonstram a profundidade da distensão entre os países. Os Estados Unidos abstiveram-se na votação no Conselho de Segurança da ONU sobre os assentamentos israelenses na Cisjordânia, revertendo, assim, a posição tradicional de usar o poder de veto contra propostas que condenassem Israel sobre esse tema.

Ásia e a contenção chinesa

Um dos grandes vetores da política externa do governo Obama foi sua estratégia para o continente asiático. Com o objetivo de conter a expansão da influência chinesa na região, a política “Pivot to Asia” procurou continuar o processo de aproximação dos Estados Unidos com os países da região do sudeste e leste asiático de forma a contrabalancear a crescente influência da China, principalmente no Mar da China. O reforço a parcerias tradicionais, como Japão e Coreia do Sul, foi acompanhado de novas parcerias, como o estabelecimento da cúpula anual com a ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático) e a intensificação das relações com Indonésia, Vietnã e Singapura.

O grande projeto de Obama, contudo, foi a negociação da Parceria Transpacífico (TPP), ambicioso acordo de liberalização comercial liderado pelos Estados Unidos e Japão que inclui 12 países banhados pelo Oceano Pacífico. O acordo, assinado em fevereiro de 2016, reúne, sob o mesmo mercado, 40% da economia de bens mundial em diversas áreas, além de incluir provisões sobre regulamentação trabalhista, investimentos e proteção ambiental. Ao não incluir a China no projeto, a TPP também insere um importante componente geopolítico, agindo em prol da contenção chinesa na região. A assinatura foi considerada como uma vitória do governo Obama, apesar de ter sido amplamente denunciada durante a última campanha presidencial por Republicanos e Democratas, o que coloca em perigo a sua entrada em vigor.

Mas as relações com a China não foram somente conflituosas nesse período. Os dois países aproximaram-se em algumas temáticas, em especial em relação às mudanças climáticas. No fim de 2014, os dois países assinaram um acordo para a redução de emissões de gases poluentes considerado histórico: além dos Estados Unidos terem aumentado a sua meta de corte de emissão, o acordo bilateral determinava, pela primeira vez, uma data limite para o aumento de emissões chinesas. Esse acordo também foi visto como um impulso para as negociações que estavam ocorrendo no período para a criação do novo tratado no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima que substituiria o Protocolo de Quioto. Assinado no fim de 2015, o Acordo de Paris entrou em vigor em novembro de 2016, após a ratificação de mais de 90 países, incluindo Estados Unidos e China, que também haviam acordado ratificar conjuntamente o tratado. Os dois países são os maiores emissões de gases causadores do efeito estufa atualmente.

América Latina

O continente americano, com pontuais exceções, não figurou entre as prioridades do governo Obama. Entre os grandes temas da política externa americana na região figuram a conturbada relação com a Venezuela, perpassada por acusações diversas e pela retirada mútua de embaixadores, e a reaproximação com Cuba, após anos de relações rompidas. As mudanças implementadas por Obama nas relações com a ilha caribenha foram o ponto alto de sua atuação na região, porém começaram de forma gradual, envolvendo, inicialmente, pequenas mudanças nas restrições impostas por Washington. Esse processo ganhou força em 2013 com o início de conversas secretas entre oficiais dos dois países para restaurar e normatizar as relações diplomáticas, o que ocorreu em julho de 2015. O marco histórico, apesar de importante para deixar pra trás esse resquício da Guerra Fria e para impulsionar transformações necessárias em Cuba, não conseguiu resolver duas questões importantes para a relação bilateral: o embargo econômico que, apesar de aliviado por medidas executivas, depende de autorização do Congresso americano para ser revertido; e o fim da atualização da base de Guantanamo Bay, uma das promessas de campanha do Obama que acabou não sendo cumprida, apesar dos esforços para a redução do uso da instalação.

A relação com o Brasil passou por momentos diversos durante os 8 anos da presidência de Obama. Antes da sua ascensão, os dois países passavam por uma tentativa de “reiniciar” as relações bilaterais, porém a crise de 2008 e a ascensão do Brasil no cenário internacional junto com os outros emergentes dificultaram o aprofundamento consistente dessa relação. No período Obama-Lula, questões pontuais como a possibilidade de retaliação devido ao contencioso do algodão, a crise constitucional em Honduras e a posição americana em relação ao acordo de Teerã (sobre o programa nuclear iraniano) provocaram tensões entre os países. Visando melhorar as relações, Brasil e Estados Unidos assinaram, em 2010, o Diálogo de Parceria Global, iniciando assim uma nova fase das relações bilaterais, mais madura. Esse momento de aproximação acaba perdendo força em 2013 devido a alguns fatores como a abstenção brasileira nas discussões relativas à Primavera Árabe, a promoção brasileira do “Responsibility While Protecting” como reação à doutrina americana “Responsability to Protect” e, principalmente, a crise da espionagem, quando foi divulgado que membros do governo brasileiro, inclusive a presidente, e empresas nacionais estavam sendo monitorados pelo governo americano. Após as revelações, as relações bilaterais chegaram a se tornar amenas, porém não retornaram a patamares anteriores. O processo de impeachment de Dilma não alterou a relação entre os países e os Estados Unidos manifestaram interesse em continuar as “fortes relações bilaterais” com o Brasil, porém não houve aproximação significativa nesse período, visto que, além da baixa prioridade da região, Washington já se concentrava no processo eleitoral.

Referências:

Obama’s Foreign-Policy Legacy: The Limits of American Restraint

Obama’s messy foreign policy legacy

Obama’s world: The President’s not-very-smart foreign policy legacy

The Legacy of Obama’s “Pivot” to Asia

The Obama Doctrine

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