O Telegrama Zimmermann

zimmermann“Nenhuma outra criptoanálise teve consequências tão profundas. Nunca antes, ou desde então, tanto foi transformado a partir da solução de uma mensagem secreta.” É assim que o historiador David Khan descreve a importância do Telegrama Zimmermann, de 1917. Enviado pelo Ministério das Relações Exteriores da Alemanha em meio à 1a Guerra Mundial, a comunicação secreta foi importante para convencer a opinião pública americana a apoiar a entrada dos Estados Unidos no conflito mundial.

No decorrer da 1a Guerra Mundial, o governo norte-americano manteve uma posição de neutralidade em relação ao conflito, condizente com o isolacionismo que defendia na sua política externa. Isso não impediu, contudo, que o país lucrasse com a guerra, já que teve sua economia fortalecida a partir do aumento da demanda de bens e de crédito por parte dos seus tradicionais aliados europeus, em especial Inglaterra e França. Apesar de não ter declarado guerra às potências centrais, o Estados Unidos tinha bastante interesse no desenvolver do conflito por causa desses interesses econômicos, porém a opinião pública norte-americana era extremamente contrária ao envolvimento real do país na guerra na Europa. Isso muda com a publicação do Telegrama Zimmerman.

Em 19 de janeiro de 1917, o Ministro de Relações Exteriores alemão, Arthur Zimmermann, enviou um telegrama secreto criptografado para o embaixador alemão no México, Heinrich von Eckardt. Acreditando que a retomada da “guerra submarina irrestrita” pelos alemães iria levar os Estados Unidos a declara guerra contra a Alemanha, Zimmermann instruiu o embaixador a oferecer uma aliança com o México e a instigar um conflito contra a vizinho do norte. “No documento, a Alemanha se comprometia a ajudar o país latino-americano a conquistar territórios dos Estados Unidos (especificamente Arizona, Novo México e Texas) em troca do apoio mexicano à causa alemã.

O principal objetivo da Alemanha ao envolver o México era utilizar um conflito no continente americano como forma de dificultar o comércio transatlântico entre Estados Unidos e as potências europeias e, assim, facilitar a vitória alemã no front ocidental. Apesar das profícuas relações atuais, o relacionamento bilateral entre EUA e México em meados da década de 1910 não era tão amistoso. A invasão e ocupação do porto de Vera Cruz pelos americanos, em 1914, durante o processo revolucionário mexicano ainda estava viva na lembrança dos mexicanos, assim como a ruptura de relações diplomáticas entre esses (formalmente ainda em vigor) e a perda de território no século anterior. Além disso, os Estados Unidos não exerciam a influência que exercem hoje no vizinho. O México era muito mais influenciado pelo capital europeu, incluindo o da Alemanha. O governo alemão chegou a ameaçar invadir o porto de Vera Cruz após a tomada pelos Estados Unidos.

O telegrama Zimmermann foi decifrado pela inteligência britânica, que interceptou a mensagem codificada enquanto transitava pelos canais diplomáticos americanos. Isso porque a Alemanha, que tinha comunicação restrita por causa do conflito, utilizava países neutros (como era o caso dos Estados Unidos) para auxiliar na troca de informações. Ao interceptar e decifrar a mensagem, os britânicos tinham a informação que precisavam para finalmente atrair os americanos para o conflito, porém atrasaram na entrega da informação de forma a proteger sua agência de inteligência.

O conteúdo do telegrama foi publicado em 1o de março de 1917, gerando, inicialmente, ceticismo por parte da população americana, que imaginou ser uma forma do governo manipula-los a aceitar a entrada do país no conflito. A confirmação do próprio ministro alemão, entretanto, fez com que a opinião pública passasse a aceitar a sua veracidade. O sentimento anti-alemão, que já existia desde antes do incidente devido ao constante torpedeamento da Marinha Mercante americana por submarinos alemães, foi inflamado com a descoberta dos planos do país europeu, levando à declaração de guerra um mês depois da publicação do telegrama (em 6 de abril de 1917).

O telegrama Zimmermann foi peça importante para a entrada dos Estados Unidos no conflito ao impactar a opinião pública americana, porém foi apenas uma das motivações pontuais para a entrada do país na guerra. A ameaça aos interesses econômicos dos Estados Unidos, tanto por meio dos torpedeamentos de navios comerciais quanto pela dívida dos países europeus, também motivou o governo norte-americano. Como pano de fundo a essas questões, havia o interesse em garantir que a resolução do conflito ocorresse de forma a criar um equilíbrio favorável aos interesses americanos: a entrada na guerra se dá em um momento crescente necessidade de defesa dos parceiros históricos frente ao fortalecimento alemão após a saída da Rússia do conflito.

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