A Doutrina Truman e a superação do isolacionismo americano

“No atual momento da história mundial cada nação deve escolher entre os modos de vida opostos. A escolha não é frequentemente livre. Um modo de vida baseia-se na vontade da maioria e se caracteriza por instituições livres, governo representativo com eleições livres, garantias de liberdade individual, liberdade de expressão e de religião, e pela supressão das formas de opressão política. Uma outra forma de vida baseia-se na vontade de uma minoria imposta à força à maioria. Ela se apoia no terror e na opressão, no controle da imprensa e do rádio, em eleições manipuladas e na supressão das liberdades individuais. Acredito que a política dos Estados Unidos deve ser de apoiar os povos livres que estão resistindo a subjugação por minorias armadas ou por pressões exteriores. Acredito que nossa ajuda deve ser primeiramente através da estabilidade econômica e da ordenação do processo político”. – Harry Truman (12 de março de 1947)

O discurso do presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, dirigido ao Congresso americano em 1947, marcou a inflexão da política externa do país no imediato pós-2a Guerra Mundial e lançou as bases do antagonismo entre os EUA e a União Soviética, que marcaria os anos da Guerra Fria. A Doutrina Truman defendia que os países do mundo tinham uma escolha fundamental entre duas formas de vida e que os Estados Unidos passariam a defender os “povos livres que estão resistindo a subjugação por minorias armadas ou por pressões exteriores.”

O caráter messiânico e intervencionista da doutrina Truman demonstrou o distanciamento efetivo da posição isolacionista na política externa americana. Ao assumir a liderança do país no fim do conflito, após a morte de Franklin Delano Roosevelt, o tradicional debate entre isolacionistas e internacionalistas continuava a marcar a opinião pública norte-americana. Apesar do engajamento e da liderança dos Estados Unidos na criação e na manutenção da recém-criada Organização das Nações Unidas, a atuação unilateral mais assertiva do país no cenário internacional, particularmente em relação à recuperação europeia e ao avanço do comunismo, ainda não era observada.

A mudança de posicionamento dos Estados Unidos em relação à sua atuação no cenário internacional foi um processo desencadeado por uma sucessão de eventos ocorridos na Europa que levaram à percepção de uma ameaça direta aos interesses e à segurança do país. No decorrer da Segunda Guerra, o avanço soviético em direção à Europa Central no combate à expansão nazista promoveu a chamada “sovietização do Leste Europeu”, ou seja, a expansão da influência da União Soviética sobre a região, seja de forma direta ou indireta. Esse processo foi entendido pela França e pela Inglaterra como uma ameaça aos países europeus capitalistas, que temiam um esforço soviético em continuar a expansão de sua zona de influência mesmo após o fim do conflito. Os aliados europeus advogavam a contenção do expansionismo soviético, porém não tinham a capacidade de fazê-lo devido à condição em que se encontravam ao fim da guerra.

A ideia de contenção da União Soviética também foi defendida por George Kennan, conselheiro da embaixada norte-americana em Moscou, no famoso “Longo Telegrama.” Kennan argumentava que a reinserção internacional da superpotência europeia não se daria nas bases do modelo de abertura comercial ocidental ou de forma a coexistir pacificamente com os ideias do mundo capitalista liberal no longo prazo. Para ele, a União Soviética percebia-se em uma “guerra perpétua” com o capitalismo e perseguiria o avanço e a expansão do socialismo, buscando a ampliação de sua zona de influência. Os Estados Unidos deveriam promover uma vigilância ativa e uma política de contenção das ambições expansionistas de forma a lidar como que ele chama de “incontestavelmente, a maior tarefa que nossa diplomacia já enfrentou e provavelmente a maior que jamais enfrentará.

A percepção da expansão soviética foi reforçada com o conflito civil na Grécia e com a crise dos estreitos turcos. Na Turquia, a insatisfação soviética em relação ao domínio turco sobre os estreitos que dão passagem ao Mar Negro foi entendida como uma possível ameaça não só à soberania dos estreitos, como também à do país. As nações ocidentais temiam que a União Soviética tomasse medidas para submeter a Turquia à sua zona de influência, seja por meio da agressão ou de apoio ao movimento comunista turco, o que representaria uma ameaça aos interesses desses países em uma região estratégica. No caso grego, o governo lutava contra uma insurgência de rebeldes ligados ao Partido Comunista Grego (KKE), acusados, à época, de receber apoio da Iugoslávia e da Albânia. A Grécia recebia ajuda do governo britânico para combater os rebeldes, porém, devido às dificuldades por que passava o país, a Grã-Bretanha declarou não poder continuar com esse compromisso. A incapacidade britânica em manter sua influência nessa região, uma área tradicional de atuação, acaba pressionando os Estados Unidos a tomarem uma posição mais assertiva. O famoso discurso de Winston Churchill sobre a “cortina de ferro” conclamava os Estados Unidos a agir de forma a conter a União Soviética. “Nossas dificuldades e perigos não serão removidos ao fecharmos os olhos para eles. Eles não serão removidos ao meramente esperarmos para ver o que vai acontecer; nem serão removidos por uma política de apaziguamento. O que é necessário é um acordo, e quanto mais tempo este demorar, mais difícil será e maior serão os nossos perigos” afirmou Churchill.

Para Sombra Saraiva, a visão “apocalíptica” em relação à ameaça e ao expansionismo comunista era, de certa forma, equivocada, devido à fragilidade em que ainda se encontrava a União Soviética no pós-Guerra. As enormes perdas humanas, a superioridade atômica norte-americana, os desafios em manter a coesão entre os países comunistas e as dificuldades econômicas por que passava o país seriam fatores restritivos à expansão massiva que alarmava o Ocidente. O autor também pondera os interesses econômicos norte-americanos na decisão de atuar mais assertivamente pela reconstrução europeia. Para manter os níveis de produção do período de guerra e evitar uma crise econômica interna, a reconstrução dos aliados europeus e a consolidação de uma zona de influência capitalista, incluída na dinâmica comercial norte-americana, tornaram-se objetivos pragmáticos da atuação dos Estados Unidos e auxiliaram na tomada de decisão do governo norte-americano em engajar-se na luta anticomunista.

A Doutrina Truman foi, dessa forma, a primeira política claramente universalista do país. Comprometia-se a auxiliar os países na luta contra o comunismo, começando pela ajuda na guerra civil grega. Com os partidos comunistas ganhando espaço em eleições nacionais na Europa, foi lançado o Plano Marshall, a tradução econômica da Doutrina Truman que atuaria de forma a promover a reconstrução econômica da Europa Ocidental. O argumento fundamental dessa medida centrava-se na ideia de que, ao impulsionar o crescimento econômico dos países da região, enfraqueceria a penetração e o fortalecimento do discurso comunista, que costuma se fortalecer em períodos de fragilidade econômica.

A práxis de política externa americana foi profundamente alterada a partir do discurso de Truman. De uma potência hesitante em imiscuir-se nos assuntos internacionais para além de ameaças reais à sua segurança e aos seus interesses, os Estados Unidos passam a agir assertivamente nas questões globais, chegando a formar alianças permanentes de defesa, como a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). O internacionalismo suplanta o isolacionismo e passa a ser a norma da atuação dos Estados Unidos durante décadas. Resta saber se essa tradição continuará no século XXI.

Referências:
História das Relações Internacionais Contemporâneas – José Flávio Sombra Saraiva
Transcript of Truman Doctrine (1947)
The Sinews of Peace (“Iron Curtain Speech”)
1947: Divulgada a Doutrina Truman

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