Revoltas Pernambucanas

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Bandeira da Revolução Pernambucana de 1817

Em 2017, comemora-se o bicentenário da Revolução Pernambucana de 1817, também conhecida como a Revolução dos Padres. O levante contra o crescente protagonismo da região centro-sul do Brasil após a chegada da Corte Portuguesa na colônia não foi, entretanto, a primeira revolta liderada pela capitania de Pernambuco (nem a última). A região foi palco de diversas insurgências ao longo da história brasileira, cujas motivações variaram ao longo do tempo.

 

Revoltas nativistas

Uma constante na história colonial do Brasil foram as diversas sedições coloniais que ocorreram no território. Essas revoltas tinham objetivos muito distintos, cada uma relacionada a alguma particularidade da região em que ocorrem, desde questões com a ocupação jesuíta de uma área até disputas político-econômicas entre colonos.

As chamadas revoluções nativistas, que relacionavam-se ao sentimento de pertencimento a determinado local e à identidade culturalmente construída ali, podem ser caracterizadas não pela existência de traços comuns, mas pela ausência dos mesmos. Os nativismos não contavam com a influência iluminista (que passaria a ser uma característica importante de revoltas posteriores), pois são anteriores (datam dos séculos XVII e XVIII); também não tinham um componente nacionalista, sendo marcadas pelo regionalismo; não visavam uma ruptura com o antigo sistema colonial, contestando apenas aspectos pontuais, sem contestar a relação colônia-metrópole ou o exclusivo metropolitano.

Pernambuco desenvolveu um forte sentimento regionalista por meio da luta contra os holandeses durante a Insurreição Pernambucana (1645-1654). A ocupação holandesa de parte da capitania nordestina, implementada em 1630, teve significativa resistência local inicialmente, porém, a partir das reformas empreendidas no período nassalino (1637-1645), os holandeses passaram a gozar de relativa aceitação por parte dos habitantes locais devido às melhorias promovidas por ele. Com a demissão de Nassau, em 1644, e com as mudanças profundas promovidas na relação entre a administração holandesa e os habitantes locais – como, por exemplo, a intensificação do fiscalismo e da cobrança de juros –, a população de Pernambuco se revoltou contra os estrangeiros. A insurgência contra os holandeses é bem sucedida mesmo sem contar com o apoio de Portugal, envolvido na Guerra de Restauração Portuguesa (1640-1660). Por lutarem “sozinhos”, há a consolidação de uma identidade regional unificadora, uma pernambucanidade.

A luta de Pernambuco contra os holandeses promoveria as bases para um dos primeiros movimentos nativistas que contestaram decisões portuguesas em relação à administração da colônia: a Revolta contra Mendonça Furtado (também conhecida como Conjuração de Nosso Pai). Ocorrida em 1666, a revolta contestava a nomeação do metropolitano Jerônimo de Mendonça Furtado para governar a província. Considerado um “estrangeiro”, a elite autóctone achou-se desprestigiada pelo governo português, pois entendiam que a liderança deveria ser dada aos locais, já que eles haviam sido responsáveis pela expulsão dos holandeses. Os revoltosos conseguem prender Mendonça Furtado e a insurgência é contida com a nomeação de um novo governador. André Vidal de Negreiros, nascido na colônia e conhecido das elites locais.

Possivelmente a revolta nativista ocorrida em Pernambuco mais famosa foi a Guerra dos Mascates (1710-1711). O embate entre os comerciantes de Recife, conhecidos como mascates, e os senhores de engenho de Olinda ocorre em um contexto de crise da produção açucareira, pela competição com a produção caribenha no mercado europeu. A perda de dinamismo do comércio de açúcar levou ao endividamento dos produtores de Olinda com os comerciantes de Recife. Com o aumento do poder econômico dos mascates, começou um embate entre as duas regiões por poder político. Como os senhores de engenho impediam o acesso dos mascates à esfera pública, este recorreram ao poder central, demandando a elevação de recife a vila, de forma a terem autonomia política. Com a elevação, em 1710, a nobreza da terra se revoltou e invadiu Recife, levando à fuga dos mascates e iniciando uma ocupação que duraria até o ano seguinte. O conflito só foi resolvido com a chegada de novo governador para a região, devolvendo a autonomia de Recife e afirmando o apoio da metrópole à burguesia mercantil.

Influência do Iluminismo e das revoluções burguesas

A partir do início do século XIX, os ideais iluministas e a experiência da Revolução Francesa passam a influenciar os movimentos de revolta no Brasil e também em Pernambuco. Um desses movimentos é a chamada Conspiração dos Suassunas (1801), ocorrida em Olinda. Membros da elite cafeicultora local, reunidos na sociedade literária Areópago de Itambé, e clérigos do Seminário de Olinda, criado em 1800, passam a discutir os movimentos políticos e ideológicos em curso na Europa. As discussões chegam ao nível de conspiração por parte de alguns membros dessa elite contra o domínio português. A ideia debatida era proclamar a emancipação de Pernambuco e formar uma república que ficasse sob a proteção de Napoleão Bonaparte. O movimento foi desarticulado após uma denúncia, porém os conspiradores acabam absolvidos por falta de provas, o que acabou por fazer com que o episódio ficasse menos conhecido. A Conspiração dos Suassunas é importante precursor nas próximas insurgências pernambucanas, tanto pela influência iluminista quanto pela participação do Seminário de Olinda como importante centro de debate.

As ideias iluministas emanadas do Seminário de Olinda também acabaram por influenciar a Revolução Pernambucana (1817). No contexto de crise econômica regional, com a decadência da produção açucareira, o aumento de gastos impostos pela transmigração da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro e a crescente importância da região centro-sul acentuaram o descontentamento do nordeste, principalmente de Pernambuco. Além do apoio das elites locais, insatisfeitas com a perda de status e seus crescente endividamento frente comerciantes portugueses, a insurgência também angariou o apoio do clero católico influenciado pelas ideias liberais e da população em geral que vinha sofrendo com a crise econômica. A Revolução Pernambucana é um marco para a história por ter sido primeiro movimento colonial separatista que consegue efetivamente tomar o poder, mesmo que efemeramente. Iniciada em 6 de março, a revolução é contida em menos de 3 meses. Apesar da curta duração, a Revolução Pernambucana repercutiu nos anos seguintes ao contestar premissas do Antigo Regime, em especial o absolutismo, e a centralização do poder no Rio de Janeiro, elementos que permaneceriam no debate político pernambucano para além do período colonial.

Outra revolta pernambucana contra o abuso do poder monárquico foi a Confederação do Equador (1824). Surgida como uma resposta ao fechamento da Assembleia Constituinte e à Constituição Outorgada de 1824, os insurgentes revoltaram-se contra o caráter centralizador do novo governo, já que acreditaram que a independência levaria a maior autonomia provincial. A Confederação teve bastante influência do movimento de 1817, contando, inclusive, como revoltosos que haviam sido anistiados após o conflito colonial, entre eles Frei Caneca, o que demonstra a influência, novamente, do Seminário de Olinda. A rebelião buscou a conformação de uma república federalista, inspirada nas repúblicas vizinhas, como a Grã-Colombia, cuja cosntituição serviu de inspiração para o movimento. Apesar de iniciado em Pernambuco, a intenção era formar um Estado que abrangesse também as províncias da Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte e Alagoas. D. Pedro I reprimiu duramente o levante: o processo de independência ainda não estava completamente consolidado, ainda havendo conflitos contra portugueses em curso. Após o controle da sedição, o julgamento dos revoltosos buscou fazê-los de exemplo para evitar novas insurgências, o que culminou na morte de alguns revoltosos, entre eles, Frei Caneca. A dura repressão e julgamento suscitou críticas ao novo governante, sendo comparado ao seu antecessor.

Apesar da dura repressão, a Confederação do Equador não foi a última grande revolta de Pernambuco. Em 1848, já no reinado de D. Pedro II, ocorre a Revolução Praieira. Novo levante contra o que entendiam ser a arbitrariedade do uso do poder pelo monarca, os revoltosos faziam parte da dissidência radical do Partido Liberal. A insatisfação com a mudança do presidente da província, aliada às mudanças observadas no governo central (substituição do gabinete liberal por conservador), levaram à tentativa de tomada de poder por parte dos liberais radicais. Os revoltosos publicaram o chamado Manifesto ao Mundo onde exprimam suas posições, entre elas a liberdade de imprensa, a extinção do Poder Moderados, a defesa do sufrágio universal e a demanda por trabalho para todo cidadão. Um importante componente das demandas praieiras era a defesa do comércio controlado por brasileiros, demonstrando não só o caráter nacionalista do movimento (influência das ondas revolucionárias de 1848), como também o anti-lusitanismo, já que os portugueses ainda controlavam o comércio varejista no Brasil. O governo central reprime duramente o levante já em 1848, quando já consegue conter os revoltosos, porém fim do conflito só ocorre efetivamente em 1850, quando pode-se dizer que há, finalmente, a consolidação do Estado nacional com o fim da última rebelião cujas origens encontram-se no ciclo regencial. Isso possibilita, enfim, a modernização capitalista do Estado brasileiro.

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4 comentários sobre “Revoltas Pernambucanas

  1. Maravilhosa a junção de tantos movimentos pernambucanos em um único texto.
    Apenas duas correções, provavelmente na digitação: no segundo parágrafo das “Revoltas Nativistas” em vez de século XII creio que se queria dizer século XVII. E na data da Revolta Contra Mendonça Furtado, 1666 em vez de 1866.

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    • Opa! Agradecemos a notificação. Os erros de digitação já foram corrigidos. Pedimos desculpas pela falha e agradecemos por acompanhar o blog Sapi 🙂 Ficamos feliz de saber que o tema agradou e aceitamos sugestões de outros temas que vocês achem interessantes.

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