Centenário das Revoluções Russas

Há 100 anos, em São Petersburgo (à época, Petrogrado), ocorriam os chamados Dias de Julho, levantes populares contra o Governo Provisório Russo que havia sido instaurado após a Revolução Russa de Fevereiro de 1917. Os Dias de Julho inserem-se no processo revolucionário russo representando o crescente embate entre mencheviques e bolcheviques que levaria à Revolução de Outubro de 1917. Em homenagem ao centenário das Revoluções Russas, o blog Sapi fez um resumo sobre o processo que desencadeou as duas revoluções, levando ao fim do czarismo russo e a ascensão do governo soviético.

Antecedentes das Revoluções Russas

As bases para o movimento revolucionário de 1917 têm origem tanto em crises internas e externas que remontam à segunda metade do século XIX quanto na formação de grupo políticos articulados na virada para o século XX. A primeira questão que pode ser apontada como antecedente para a revolução é a Guerra da Crimeia. A perda de prestígio por causa da derrota militar levou a um esforço de modernização promovido pelo czar Alexandre II para reduzir o atraso russo em relação aos países ocidentais, exemplificado pelo expansionismo para o leste. Esse esforço, contudo, intensificou a crise interna russa pela deterioração das condições de vida da população, especialmente no campo. Em 1861, a abolição da servidão, majoritariamente teórica, abriu margem para a intensificação de movimentos populares no campo, incluindo um chamado “A Vontade do Povo”, que passa a promover atentados e consegue assassinar o czar Alexandre II, em 1881. O esforço de modernização de Alexandre II acabou sendo responsável, em maior ou menor escala, pela formação dos atores políticos russo no contexto pré-revolucionário.

As características da incipiente industrialização russa também influenciaram a formação desses atores. Além de dependente do capital internacional, a industrialização da Rússia ocorreu de forma amplamente concentrada, particularmente nas cidades de Moscou e São Petersburgo. Essa concentração torna o nascente movimento operário menos difuso que o observado em outros países mais industrializados como Inglaterra ou França, auxiliando na sua capacidade de articulação. A partir do meio urbano surgem dois importantes partidos políticos na Rússia: o Partido Constitucional Democrata, de 1905, comprometido com o liberalismo político (criação de uma constituição e um parlamento/Duma) e com aproximação com ocidente cujos membros eram chamados de kadets, ; e o Partido Social-Democrata dos Operários Russos (PSDOR), de 1898, com inspiração no partido socialista alemão (SPD) e na Segunda Internacional Socialista. A cisão do PSDOR em 1903 dá origem aos dois grupos mais conhecidos no contexto das Revoluções Russas: os mencheviques, ou minoria, que defendiam o socialismo científico de Marx e o caráter processual da revolução; e os bolcheviques, ou maioria, que defendiam a necessidade de radicalização da revolução. Um terceiro ator político relevante é o Partido Social-Revolucionário, de 1901, responsável pela institucionalização do movimento do campo e comprometido com a reforma agrária.

RR domingoA nova derrota militar russa na Guerra Russo-Japonesa (1904-1905) – esforço de expansão para leste levou ao embate com Japão – intensifica a insatisfação popular com monarca Nicolau II, além de causar o descrédito da Marinha russa. Em meio às críticas à guerra, o episódio do Domingo Sangrento catalisou o descontentamento da população com o czar. A violenta repressão contra a manifestação popular em São Petersburgo deu início ao que ficou conhecido como Ensaio Geral ou Revolução de 1905, expressão da insatisfação do povo russo contra Nicolau II que se traduziu em novas manifestações e greves, secundadas por setores da Marinha insatisfeitos com as condições e com o prestígio dos marinheiros, e na constituição dos Sovietes, espécie de Conselho de Operários. O czar respondeu às pressões populares por meio do Manifesto de Outubro, no qual permitia a criação da Duma (parlamento), além de se comprometer com a liberdade de imprensa e condições de igualdade para diferentes nacionalidades dentro do império. Essas transformações, contudo, são artificiais: a Duma é controlada pela aristocracia czarista e, com o retorno da estabilidade, Nicolau II retoma as tradições absolutistas.

Revolução de Fevereiro de 1917

RR armas

A participação da Rússia na Primeira Guerra Mundial reascende as tensões da população contra o monarca. O custo do esforço de guerra demonstra ser muito alto para o povo: além da acentuação da crise econômica, o envolvimento em mais um conflito militar gerou muita insatisfação popular. A derrota na campanha de Galipolli, que visava a tomada do estreito de Dardanelos, estratégico para a Rússia, gerou medo de uma nova empreitada militar mal sucedida como havia sido em 1904. Novas manifestações e greves contra o czar demonstraram a incapacidade do governo em lidar com as demandas populares, o que levou os revolucionários a tomar a Duma e forçar a abdicação de Nicolau II.

RR fevereiroÉ instaurado o Governo Provisório Russo, dominado pelos mencheviques (dentre os quais, Kerensky) com o apoio dos liberais (kadets) e social-revolucionários. O governo oficial defendia a via moderada, sem o aprofundamento da revolução, a permanência na guerra, visando a conquista dos estreitos turcos, e a convocação de uma assembleia constituinte. Apesar da instabilidade do período, algumas medidas progressistas foram conquistadas, como a separação entre Igreja e Estado, a aprovação da jornada de oito horas e a afirmação dos direitos civis fundamentais (como a liberdade de expressão, de imprensa e de reunião).

O período do Governo Provisório, entretanto, foi marcado pela crescente oposição dos bolcheviques, concentrados no Soviete de São Petersburgo, que desejavam o aprofundamento do processo revolucionário. Passa a existir, em verdade, uma espécie de Poder Duplo no país, por um lado, exercido pelo governo provisório moderado e, por outro, pelo Soviete de São Petersburgo. A decisão dos moderados pela permanência na guerra permitiu o fortalecimento dos bolcheviques, já que a população era majoritariamente contrária ao conflito e as condições de vida deterioravam cada vez mais, com a fome atingindo uma grande parcela da população. Nesse contexto, as Teses de Abril de Lênin encontraram apoio popular ao defender o acesso a pão, terra e paz, o que fortaleceu o movimento bolchevique.

19170704_Riot_on_Nevsky_prosp_PetrogradOs Dias de Julho ocorrem nesse contexto de embate entre governo provisório e bolcheviques. Os protestos ocorridos no início de julho em São Petersburgo aproveitaram-se de um momento de fragilidade institucional do governo provisório para demandar que os sovietes tomassem o poder e implementassem uma agenda mais favorável aos trabalhadores russos. Apesar da adesão de grupos opositores ao governo provisório, como bolcheviques e anarquistas, a tentativa de tomada de poder não foi bem sucedida, levando a um breve enfraquecimento dos bolcheviques.

A vitória do governo provisório, contudo, não garantiu o seu fortalecimento, já que a incapacidade de implementar as mudanças demandadas continuava a aumentar a insatisfação popular com os mencheviques. O golpe de Kornilov, a tentativa de golpe por parte do Exército russo em setembro de 1917, demonstrou a fragilidade do governo provisório, que conseguiu resistir ao levante por causa do apoio dos bolcheviques e sua Guarda Vermelha. Ao fim do episódio, os mencheviques demonstravam-se cada vez mais fracos e os bolchevique, mais fortes.

RR Guarda vermelha.jpgEm outubro de 1917, os bolcheviques insurgiram contra o governo provisório por meio do Comitê Militar-Revolucionário (CMR). O governo provisório não conseguiu resistir: em poucos dias os bolcheviques tinham tomado as principais instalações governamentais e Kerensky tinha fugido do país. O novo governo instaurado defendia as ideias propostas nas Teses de Abril de Lênin, como acesso à terra para camponeses, protagonismo operário e nacionalização dos recursos naturais. O governo bolchevique também negociou a saída da Rússia da guerra por meio da negociação, com a Alemanha, do acordo de Brest-Litosvki, de 1918, no qual os russos se comprometeram com o pagamento de reparação financeira e com perdas territoriais. A ascensão dos bolcheviques, apesar da pouca resistência inicial, não foi completamente pacífica, já que, pouco depois, eclode a Guerra Civil Russa, que duraria até 1922.

 

 

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