Dúvidas e Respostas: Estado Islâmico

Imagem: ABC.es

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O Curso Sapientia acaba de lançar esta nova área no blog, chamada Dúvidas & Respostas. Selecionaremos e publicaremos dúvidas, e suas respectivas respostas, acerca dos assuntos relacionados ao Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (#CACD), como forma de apoio aos estudos, afinal, a dúvida do colega pode ser a sua também!

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Dúvida:

Aluno Sapiente: Olá, professor! Quais foram, na sua opinião, as principais mudanças na geopolítica mundial após a ascensão do Estado Islâmico? Os maiores afetados seriam a Síria e o Iraque, como parece ser, ou outros países relacionados de maneira menos óbvia ao conflito? Quais grupos teriam se fortalecido/enfraquecido após o fortalecimento de al-Baghdadi?

Resposta:

Professor Guilherme Casarões*: Aponto algumas mudanças geopolíticas após a ascensão do ISIS, pensando especificamente nas questões envolvendo o Oriente Médio:

1) Redefinição das prioridades da comunidade internacional, especialmente dos EUA, na região: até a Primavera Árabe, os holofotes internacionais estavam sobre Israel/Gaza e a questão nuclear do Irã. Entre 2011 e 2013, deu-se grande atenção à guerra civil síria, às transformações políticas no Egito e à expansão de grupos terroristas no norte da África (Mali, Líbia), beneficiados pelo vácuo de poder pós-Kaddafi. De lá para cá, houve a aparente normalização das relações das potências ocidentais com o Irã, o retorno da estabilidade autoritária no Egito (ao menos por ora) e o deslocamento do centro de gravidade da questão síria para a ascensão do fundamentalismo sunita no país. Isso abriu espaço para que o Estado Islâmico se tornasse a principal preocupação na geopolítica médio-oriental – lado a lado com a questão palestina, que é tema perene na agenda.

2) Realinhamento das relações regionais: a Primavera Árabe reduziu a centralidade geopolítica de países como Egito e Síria, que passaram por longas crises domésticas, e possibilitou a emergência de novos centros político-econômicos no xadrez regional, como a Turquia (impulsionada pela política de “potência emergente” de Erdogan), a Arábia Saudita e os Emirados Árabes – todos majoritariamente sunitas. Os três, por razões diferentes, combateram o governo sírio de Assad (alauíta, aliado dos xiitas), jogando seu peso em favor dos “rebeldes” de oposição (majoritariamente sunitas). O problema é que, ao menos de acordo com o discurso oficial, ninguém previa a rápida ascensão do Estado Islâmico, com grande organização, capacidade militar, e potencial de expansão territorial. Agora, portanto, o governo saudita e dos Emirados estão cooperando com os EUA para combater o EI. Com isso, acabam lutando do mesmo lado de Iraque, xiita e rival regional, e do governo Assad. O temor da instabilidade gerada pelo EI também coloca Rússia e China em sintonia com os EUA. Situação semelhante só foi vista no auge da crise nuclear iraniana, em 2010 — o que deixou o Brasil (junto com Turquia) em posição de isolamento. Para complicar ainda mais o jogo regional, alguns políticos e analistas ocidentais acreditam que o Catar esteja financiando o EI como forma de enfraquecer a Arábia Saudita e os Emirados.

3) Redefinição das relações entre terrorismo e islamismo: o terrorismo não-estatal de raízes religiosas (Hamas, Hezbollah, Al-Qaeda em todas suas “vertentes”, Boko Haram), que aninhou grande parte das preocupações internacionais sobretudo no pós-11 de setembro, vai dando espaço para uma espécie de terrorismo islâmico estadocêntrico, em que o grupo fundamentalista (no caso, o EI) tem pretensões territoriais e vem adquirindo uma estrutura estatal, com exército permanente, arrecadação tributária, aparato ideológico, etc. No limite, essa transformação coloca em xeque a própria noção secular sobre a qual se construiu a ideia de Estado moderno e obriga os demais países a repensar os meios de combate ao extremismo religioso, principalmente naquela região.


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* Guilherme Casarões: é professor de Política Internacional do Sapientia. Além disso, é professor da FGV-SP e articulista sobre a Política Externa Brasileira.

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