O que significa a 4ª reeleição presidencial de Vladimir Putin para a Rússia?

No último domingo, dia 18/03, Vladimir Putin foi reeleito presidente da Rússia com mais de 70% dos votos e governará o país até 2024, sendo o seu 4ª mandato presidencial. Putin é o político russo que mais permaneceu no poder depois de Josef Stalin, conhecido por ter ficado por 31 anos no cargo de Secretário-Geral do Partido Comunista da então União Soviética. O ex-espião da KGB foi de primeiro ministro em 1999, para presidente de 2000-2008, voltou a ser primeiro ministro de 2008 a 2012 e de novo presidente em 2012, cargo no qual ele continua até hoje devido a uma emenda constitucional, criada por ele próprio, que ampliou o período da Presidência de 4 para 6 anos.

O resultado das eleições não causou maiores surpresas para o Ocidente, já que o presidente é visto como um autocrata, que rejeita valores democráticos e direitos humanos. Não obstante, há grupos oposicionistas que denunciaram diversas irregularidades com os resultados obtidos nas eleições em várias cidades, como boca de urna, oferta de comidas grátis e descontos em lojas próximas aos locais de votação.

Acontece que sua popularidade na Rússia se deve não só pela influência da sua atual política externa, como também por ter conseguido construir uma identidade nacional em uma sociedade étnica e culturalmente bem diversa. Putin conseguiu aumentar sua popularidade desde o conflito entre Rússia e Ucrânia, no qual resultou na anexação da Crimeia, que teve a sua primeira participação na votação deste ano desde a sua anexação, além dos constantes atritos com os países europeus e a sua intervenção na Guerra da Síria, já que a Rússia é a principal aliada do Presidente Bashar al-Assad. Para a população, esse grande envolvimento com temas geopolíticos abarcando União Europeia, EUA, China, entre outros gigantes do cenário mundial, remete-se aos tempos de glória e destaque na época da União Soviética.

No que diz respeito à economia, desde 2000, quando a Era Putin teve início, a economia voltou a crescer, alcançando o valor recorde do PIB em 2013, e a proporção de russos que viviam na pobreza após a queda da União Soviética também diminuiu drasticamente.

Na Rússia de hoje, o poder e a liderança estão centralizados na imagem de Putin. Sua experiência como espião se mostrou útil no novo regime pós-Soviético. Seu período de formação ocorreu com a queda do muro de Berlim na época em que ainda vivia na Alemanha Oriental, trabalhando na Central de Operações da KGB, em Dresden, e nos últimos momentos da Guerra Fria, o que culminou em duas fortes características do seu governo: seu receio por levantes populares e pelo vácuo de poder que surgiu com o colapso da União Soviética.

A exemplo de sua primeira característica marcante, entre 2011 e 2013, houve uma série de protestos na Rússia, que seguiu o contexto dos países vizinhos e o contexto da Primavera Árabe, pedindo eleições mais limpas e transparentes através de reformas democráticas, tendo sido um dos maiores protestos ocorridos no país desde 1990. Com isso, Putin observou a opinião pública se inclinando a favor de mudanças, com a derrocada de líderes autocráticos em outros países, trazendo à tona as lembranças de 1989. Para ele, esses movimentos populares serviriam como porta de entrada dos governos do Ocidente na Rússia. Para conter tal “invasão”, decidiu adotar uma política aparentemente um pouco mais liberal, ao defender a descentralização de poder nas regiões russas e utilizava a palavra “reforma” em quaisquer dos seus discursos políticos.

O resultado foi fugaz: rapidamente obteve novamente o controle da situação e resolveu por abandonar esta estratégia, que descaracterizava completamente sua ideologia, inflada com nacionalismo e poderio militar. Esperemos para ver quais serão os novos (ou nem tão novos assim) desdobramentos políticos para os próximos 06 anos de governo Putin.

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Dúvidas e Respostas: Estado Islâmico

Imagem: ABC.es

Imagem: ABC.es

O Curso Sapientia acaba de lançar esta nova área no blog, chamada Dúvidas & Respostas. Selecionaremos e publicaremos dúvidas, e suas respectivas respostas, acerca dos assuntos relacionados ao Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (#CACD), como forma de apoio aos estudos, afinal, a dúvida do colega pode ser a sua também!

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Dúvida:

Aluno Sapiente: Olá, professor! Quais foram, na sua opinião, as principais mudanças na geopolítica mundial após a ascensão do Estado Islâmico? Os maiores afetados seriam a Síria e o Iraque, como parece ser, ou outros países relacionados de maneira menos óbvia ao conflito? Quais grupos teriam se fortalecido/enfraquecido após o fortalecimento de al-Baghdadi?

Resposta:

Professor Guilherme Casarões*: Aponto algumas mudanças geopolíticas após a ascensão do ISIS, pensando especificamente nas questões envolvendo o Oriente Médio:

1) Redefinição das prioridades da comunidade internacional, especialmente dos EUA, na região: até a Primavera Árabe, os holofotes internacionais estavam sobre Israel/Gaza e a questão nuclear do Irã. Entre 2011 e 2013, deu-se grande atenção à guerra civil síria, às transformações políticas no Egito e à expansão de grupos terroristas no norte da África (Mali, Líbia), beneficiados pelo vácuo de poder pós-Kaddafi. De lá para cá, houve a aparente normalização das relações das potências ocidentais com o Irã, o retorno da estabilidade autoritária no Egito (ao menos por ora) e o deslocamento do centro de gravidade da questão síria para a ascensão do fundamentalismo sunita no país. Isso abriu espaço para que o Estado Islâmico se tornasse a principal preocupação na geopolítica médio-oriental – lado a lado com a questão palestina, que é tema perene na agenda.

2) Realinhamento das relações regionais: a Primavera Árabe reduziu a centralidade geopolítica de países como Egito e Síria, que passaram por longas crises domésticas, e possibilitou a emergência de novos centros político-econômicos no xadrez regional, como a Turquia (impulsionada pela política de “potência emergente” de Erdogan), a Arábia Saudita e os Emirados Árabes – todos majoritariamente sunitas. Os três, por razões diferentes, combateram o governo sírio de Assad (alauíta, aliado dos xiitas), jogando seu peso em favor dos “rebeldes” de oposição (majoritariamente sunitas). O problema é que, ao menos de acordo com o discurso oficial, ninguém previa a rápida ascensão do Estado Islâmico, com grande organização, capacidade militar, e potencial de expansão territorial. Agora, portanto, o governo saudita e dos Emirados estão cooperando com os EUA para combater o EI. Com isso, acabam lutando do mesmo lado de Iraque, xiita e rival regional, e do governo Assad. O temor da instabilidade gerada pelo EI também coloca Rússia e China em sintonia com os EUA. Situação semelhante só foi vista no auge da crise nuclear iraniana, em 2010 — o que deixou o Brasil (junto com Turquia) em posição de isolamento. Para complicar ainda mais o jogo regional, alguns políticos e analistas ocidentais acreditam que o Catar esteja financiando o EI como forma de enfraquecer a Arábia Saudita e os Emirados.

3) Redefinição das relações entre terrorismo e islamismo: o terrorismo não-estatal de raízes religiosas (Hamas, Hezbollah, Al-Qaeda em todas suas “vertentes”, Boko Haram), que aninhou grande parte das preocupações internacionais sobretudo no pós-11 de setembro, vai dando espaço para uma espécie de terrorismo islâmico estadocêntrico, em que o grupo fundamentalista (no caso, o EI) tem pretensões territoriais e vem adquirindo uma estrutura estatal, com exército permanente, arrecadação tributária, aparato ideológico, etc. No limite, essa transformação coloca em xeque a própria noção secular sobre a qual se construiu a ideia de Estado moderno e obriga os demais países a repensar os meios de combate ao extremismo religioso, principalmente naquela região.


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* Guilherme Casarões: é professor de Política Internacional do Sapientia. Além disso, é professor da FGV-SP e articulista sobre a Política Externa Brasileira.