Novo ataque do Ocidente contra a Síria: 3ª Guerra Mundial?

Olá Sapientes!

Parece que a situação no território sírio voltou a complicar mesmo com a expulsão do Estado Islâmico, não é mesmo? Entenda o que acontece em meio às disputas globais.

O contexto histórico da guerra na Síria teve origem em 2011, por meio de protestos da população durante a Primavera Árabe contra os altos níveis de desemprego, corrupção e ausência de liberdade política, culminando em uma verdadeira guerra civil. Na Síria, vemos os EUA que lutam pela derrubada do governo do ditador Bashar Al-Assad, enquanto que a Rússia, juntamente com o Iraque, luta pela sua permanência no poder. Além disso, o Estado Islâmico ou Daesh, denominação menos popular, perdeu território e força na Síria, boa parte devido a diversas ações de Al-Assad e seus aliados, envolvendo grandes massacres, com o objetivo de retirar as forças rebeldes religiosas que dominavam a região de Ghouta Oriental desde 2012. Foi objetivo dos EUA, já durante o governo de Donald Trump, ajudar a derrubar este grupo religioso extremista. Porém, a posição dos EUA definitivamente não é mais esta durante a guerra que perdura anos.

Atualmente, há um conflito latente entre os EUA, com os países aliados, e a Rússia no Oriente Médio. A resolução das controvérsias por meio da ONU entre essas duas potências mundiais não é uma tarefa fácil, já que ambos possuem poder de veto no Conselho de Segurança. Se antes os EUA eram favoráveis à causa Síria pelo fim do Estado Islâmico, hoje, eles acusam o país pelo uso de armas químicas contra a própria população, sendo a causa das novas ofensivas aéreas das potências ocidentais coordenadas pelos EUA, Reino Unido e França na última semana, uma verdadeira sexta-feira, 13, com o lançamento de 105 mísseis em três pontos específicos: Centro de pesquisa e desenvolvimento em Barzeh, um bunker em Him Shinshar e um armazém também localizado em Him Shinshar. Além disso, os agentes da Opaq (Organização para a proibição das armas químicas), autorizados pela ONU, foram até a cidade atingida para fazer a inspeção, mas não conseguiram chegar até o local devido a não garantia de segurança por parte do governo de Bashar Al-Assad e da Rússia, o que impediu uma investigação internacional mais contundente.

De acordo com as potências ocidentais, há uma desconfiança de que no início do mês de abril deste ano, o governo do ditador sírio atacou com armas químicas uma cidade periférica à capital controlada por rebeldes denominada Douma. Uma das substâncias foi identificada como gás de cloro, uma substância tóxica altamente nociva em lugares fechados, tendo como principais sintomas formação de espuma na boca, irritação da córnea e pupilas dilatadas. Além desta substância, outras podem ter sido utilizadas simultaneamente, como o gás sarin.  O Secretário das Nações Unidas, António Gutierrez, disse que “o uso de armas químicas é abominável e uma clara violação ao Direito Internacional”.

Há uma guerra de versões: enquanto que Bashar Al-Assad afirma tudo isso ser uma acusação fabricada pelos aliados e a Rússia dizer que este ataque faz parte de mais uma encenação ocidental frente à campanha russófoba por meio da participação dos serviços especiais americanos, França e Inglaterra atacam veementemente o regime, declarando a autoria do governo sírio e afirmando que todos os esforços serão feitos para remover a capacidade química altamente destrutiva do país. O que se sabe é que uma solução pacífica entre o ocidente e Síria e Rússia infelizmente parece longe de acontecer.


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A coragem das mulheres contra a obrigação do uso do véu ganha força no Irã

Olá, Sapientes!

Uma boa dica sobre Atualidades dessa semana é o que tem acontecido no Irã e que pode ser tema-objeto de questão para o concurso do CACD.

Quem diria que as mulheres, consideradas cidadãs de segunda categoria em diversos aspectos sociais após a Revolução de 1979, fossem revoltar-se no Irã pelo uso forçado dos véus. Neste protesto, elas tiram-no e decidem pendurá-los em paus, como se fossem “varas de pescar” ficando em praça pública de cabeça destampada e hijab no ar, em sinal de protesto pacífico contra um dos maiores símbolos de opressão do sexo feminino no país. Este movimento começou pela capital do Irã e já se alastrou para outras cidades.

Este movimento teve como fonte de inspiração uma jornalista iraniana chamada Masih Alinejad que desde 2014 tem incentivado ações de protesto como esta através da sua página My Stealthy Fredom (Minha liberdade furtiva), no qual questiona frequentemente as leis de seu país. Alinejad fez um vídeo de si mesma caminhando sem véu no Irã e incentivou outras mulheres a fazerem o mesmo. O vídeo e as fotografias deste ato rebelde viralizaram na internet por meio de redes sociais e hoje se tornaram um marco contra a opressão feminina. Alinejad vive atualmente nos Estados Unidos e teme em ser presa caso volte ao seu país, mas continua encorajando outras mulheres iranianas sendo peça chave neste movimento revolucionário feminino. O que está em pauta não é o uso voluntário do hijab, mas, sim, sua obrigatoriedade.

Masih Alinejad (Masoumeh Alinejad-Ghomi), an Iranian journalist and writer based in London, UK.

Masih Alinejad

Muitos homens também se solidarizam à causa pendurando um véu em um pedaço de madeira, balançando-o em um gesto simbólico, assim como mulheres que usam o hijab por vontade e convicção próprias. Para os que acham que se trata de uma simples peça de roupa, não se enganem: discute-se a dignidade da mulher, sua liberdade de escolha e seu poder absoluto sobre seu corpo e demais aspectos da vida, até então inexistentes. A conquista da liberdade de escolha no vestuário representa simbolicamente o condão da liberdade para todo o resto.

No fim de 2017, outra iraniana ficou conhecida por protagonizar a mensagem de protesto, Vida Movahed, em plena rua da capital Teerã. Vida ficou por mais de 40 minutos em cima de uma caixa de eletricidade, sem o véu branco que lhe cobria a cabeça, com ele amarrado por um pedaço de pau. Posteriormente, foi conduzida coercitivamente à Polícia. Coincidentemente, Alinejad havia pedido através de sua página que as mulheres usassem véu branco às quartas-feiras em sinal de protesto. O protesto de Vida foi exatamente em uma quarta-feira e com um véu branco espetado em um pedaço de pau.

Em resposta, as autoridades tentaram ridicularizar o protesto por meio da desvalorização e infantilização dos atos femininos, o que não repercutiu da forma esperada, ao contrário de outras ocasiões anteriormente abafadas. Se durante 40 anos as tentativas de indignação foram silenciadas por meio da força, as gerações mais novas mostram que o medo dessa força já não é suficiente para calá-las, a coragem toma lugar para o desafio da desobediência civil.

Dúvidas e Respostas: Estado Islâmico

Imagem: ABC.es

Imagem: ABC.es

O Curso Sapientia acaba de lançar esta nova área no blog, chamada Dúvidas & Respostas. Selecionaremos e publicaremos dúvidas, e suas respectivas respostas, acerca dos assuntos relacionados ao Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (#CACD), como forma de apoio aos estudos, afinal, a dúvida do colega pode ser a sua também!

Você ainda não faz parte do Sapientia? Matricule-se já!

Dúvida:

Aluno Sapiente: Olá, professor! Quais foram, na sua opinião, as principais mudanças na geopolítica mundial após a ascensão do Estado Islâmico? Os maiores afetados seriam a Síria e o Iraque, como parece ser, ou outros países relacionados de maneira menos óbvia ao conflito? Quais grupos teriam se fortalecido/enfraquecido após o fortalecimento de al-Baghdadi?

Resposta:

Professor Guilherme Casarões*: Aponto algumas mudanças geopolíticas após a ascensão do ISIS, pensando especificamente nas questões envolvendo o Oriente Médio:

1) Redefinição das prioridades da comunidade internacional, especialmente dos EUA, na região: até a Primavera Árabe, os holofotes internacionais estavam sobre Israel/Gaza e a questão nuclear do Irã. Entre 2011 e 2013, deu-se grande atenção à guerra civil síria, às transformações políticas no Egito e à expansão de grupos terroristas no norte da África (Mali, Líbia), beneficiados pelo vácuo de poder pós-Kaddafi. De lá para cá, houve a aparente normalização das relações das potências ocidentais com o Irã, o retorno da estabilidade autoritária no Egito (ao menos por ora) e o deslocamento do centro de gravidade da questão síria para a ascensão do fundamentalismo sunita no país. Isso abriu espaço para que o Estado Islâmico se tornasse a principal preocupação na geopolítica médio-oriental – lado a lado com a questão palestina, que é tema perene na agenda.

2) Realinhamento das relações regionais: a Primavera Árabe reduziu a centralidade geopolítica de países como Egito e Síria, que passaram por longas crises domésticas, e possibilitou a emergência de novos centros político-econômicos no xadrez regional, como a Turquia (impulsionada pela política de “potência emergente” de Erdogan), a Arábia Saudita e os Emirados Árabes – todos majoritariamente sunitas. Os três, por razões diferentes, combateram o governo sírio de Assad (alauíta, aliado dos xiitas), jogando seu peso em favor dos “rebeldes” de oposição (majoritariamente sunitas). O problema é que, ao menos de acordo com o discurso oficial, ninguém previa a rápida ascensão do Estado Islâmico, com grande organização, capacidade militar, e potencial de expansão territorial. Agora, portanto, o governo saudita e dos Emirados estão cooperando com os EUA para combater o EI. Com isso, acabam lutando do mesmo lado de Iraque, xiita e rival regional, e do governo Assad. O temor da instabilidade gerada pelo EI também coloca Rússia e China em sintonia com os EUA. Situação semelhante só foi vista no auge da crise nuclear iraniana, em 2010 — o que deixou o Brasil (junto com Turquia) em posição de isolamento. Para complicar ainda mais o jogo regional, alguns políticos e analistas ocidentais acreditam que o Catar esteja financiando o EI como forma de enfraquecer a Arábia Saudita e os Emirados.

3) Redefinição das relações entre terrorismo e islamismo: o terrorismo não-estatal de raízes religiosas (Hamas, Hezbollah, Al-Qaeda em todas suas “vertentes”, Boko Haram), que aninhou grande parte das preocupações internacionais sobretudo no pós-11 de setembro, vai dando espaço para uma espécie de terrorismo islâmico estadocêntrico, em que o grupo fundamentalista (no caso, o EI) tem pretensões territoriais e vem adquirindo uma estrutura estatal, com exército permanente, arrecadação tributária, aparato ideológico, etc. No limite, essa transformação coloca em xeque a própria noção secular sobre a qual se construiu a ideia de Estado moderno e obriga os demais países a repensar os meios de combate ao extremismo religioso, principalmente naquela região.


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* Guilherme Casarões: é professor de Política Internacional do Sapientia. Além disso, é professor da FGV-SP e articulista sobre a Política Externa Brasileira.